Episódio 01

Eu e o Mundo

Dan encerra seu primeiro dia de trabalho sentindo-se perdido diante de um mundo corporativo complexo e desconhecido, contrastando com a simplicidade de sua infância marcada pela curiosidade e pela falta de preocupações. Ao refletir sobre sua trajetória, percebe que crescer é aprender a navegar entre incertezas, entendendo que tecnologia e software são, acima de tudo, sobre pessoas e suas jornadas.

Data do ciclo

2 de jun. de 2026

Tempo de leitura

5 min

Universo

aprender-e-uma-jornada

Diretivas

#software-engineering #narrative #learning

Um jovem olhando para uma vasta paisagem urbana, simbolizando a complexidade avassaladora do mundo corporativo que ele acabou de entrar.

São 18h. Meu primeiro dia de trabalho acabou.

Saio um pouco exausto, mas não é um cansaço físico. É como se tivessem despejado um mundo inteiro na minha frente em poucas horas.

Muita informação, muita coisa acontecendo na empresa, muita gente falando com naturalidade sobre assuntos que, para mim, pareciam de outro planeta. Falam de um problema no CRM, dizem que ele roda on-premise, comentam sobre resultados, alinhamentos, performance, metas.

Para ser honesto, naquele momento eu me sentia um alienígena.

Ou talvez o alienígena fossem eles.


Um mundo que falava outra língua

Falavam uma língua diferente da minha.

Usavam termos que eu nunca tinha ouvido. Se comportavam de um jeito que eu também não conhecia. Eram diretos, objetivos, sem muita enrolação.

Algumas semanas antes eu estava fazendo entrevista para aquela vaga sem ter a menor noção do que era ser um jovem aprendiz, de como deveria me comportar ou do que, de fato, esperavam de mim.

Agora eu estava ali, tentando parecer menos perdido do que realmente estava.

Era a primeira vez que eu cumpria um horário de trabalho de verdade.

Entrei às 8h em ponto, conforme me instruíram.

Participei de reuniões de alinhamento, de apresentação de resultados, de conversas sobre a performance da empresa.

Eu não sabia que o mundo era assim.

Não sabia que tanta coisa precisava ser planejada, medida e acompanhada.

Até então, minha vida nunca tinha ido muito além do que eu faria no dia seguinte ou, no máximo, naquela mesma semana.


Antes do mundo corporativo

Quando eu era criança, e mesmo durante a adolescência, vivi cada dia como se fosse uma surpresa.

Eu não planejava muitas coisas.

As exceções eram quando os professores pediam alguma apresentação em cartolina, com recortes de jornais e revistas.

Esse era o tipo de planejamento que eu conhecia.

Eu me reunia com os colegas e decidíamos em qual casa faríamos o trabalho.

Muitas vezes, a escolha não tinha nada a ver com organização.

Preferíamos a casa de quem tinha mais lanche ou um videogame para jogarmos depois.


Onde tudo começou

Meu primeiro contato com o mundo da computação não foi por um computador.

Foi por um videogame.

Um NES, o velho Nintendo.

Era um console antigo, provavelmente lançado no Brasil por volta de 1993.

Quando tive a oportunidade de jogar, ele já vinha com os sinais do tempo.

Os cartuchos nem sempre funcionavam de primeira.

Era preciso insistir.

Testar.

Repetir algum pequeno ritual.

Meus colegas costumavam soprar os cartuchos.

Eu já tinha ouvido falar que aquilo só aumentava a chance de oxidação, então dizia para usarem álcool apropriado para limpeza de componentes ou, pelo menos, um pano macio.


Hoje percebo que a curiosidade começou muito antes de eu escrever minha primeira linha de código.

Eu não entendia de eletrônica.

Não de verdade.

Mas, olhando hoje, acho que alguma coisa já começava ali.

Havia em mim uma curiosidade difícil de explicar.

Uma vontade de entender por que as coisas funcionavam.

E, principalmente, por que às vezes deixavam de funcionar.


Quando as preocupações ainda não eram minhas

A vida era boa.

Eu não tinha preocupações reais.

Não precisava pensar em qual seria o rancho do mês, nas contas a vencer ou em quanto dinheiro sobraria no final dele.

Essas preocupações existiam.

Mas ainda não eram minhas.

Eu só as ouvia nas conversas dos meus pais, quase sempre em voz de cansaço.

Estava difícil. Estava faltando. Não estava dando. Teríamos de economizar mais.


O tamanho do mundo

Ao final do ensino médio, comecei a olhar para o futuro de outro jeito.

Passei a levar mais a sério as preocupações dos meus pais.

O esforço que faziam para me dar o melhor possível.

E, principalmente, o quanto eu ainda não entendia sobre o tamanho do mundo.

Ele era grande.

Dava medo.

Tudo o que eu tinha feito até aquele momento não parecia suficiente para me transformar em um jovem adulto com responsabilidades.


Perguntas

Tudo o que havia na minha cabeça eram perguntas.

  • O que eu vou ser?
  • Em que eu vou trabalhar?
  • Como alguém sem preparo começa?

Meus pais sempre me incentivaram a ler e estudar, porque diziam que essa era a única coisa que realmente poderia me acompanhar por toda a vida.

Confesso que, por muito tempo, não dei a devida importância a isso.

Quando somos crianças, ou mesmo adolescentes, ainda não sabemos distinguir bem o conselho de quem nos ama da dureza silenciosa da vida adulta.


A travessia

Eu me chamo Daniel Andrade Nogueira, ou simplesmente Dan.

E, se hoje consigo contar essa história, é porque houve uma longa travessia entre aquele menino que vivia sem pensar muito no amanhã e o jovem que saiu do primeiro dia de trabalho sem entender quase nada do que tinha ouvido.

Foi nessa travessia que comecei a perceber uma coisa que só faria mais sentido com o tempo.

Software nunca foi apenas sobre máquinas.

Sempre foi sobre pessoas tentando construir algo maior do que elas mesmas, enquanto lutam para não se perder no processo.